Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
Manuel Bandeira
Pensa-se
A vida miúda
sábado, 11 de outubro de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Da pluralidade
Todas as palavras ditas e todas as coisas feitas e todos os ruídos e todo o silêncio e todo o excesso e toda a falta
Tudo, tudo...
Nada se reconhece ou
Se faz reconhecer ou
É demais e é tudo
E cansa porque é tudo e nunca se recorta.
Estas vias que aqui se cruzam
- e que se cruzam também em outros pontos -
Nem linhas têm.
Tudo o que há é um emaranhado de fios fragmentados disformes de cores-sem-fim
E há isto e aquilo e há tudo.
E assim se fazem estas vias.
Estão todas as coisas em mim.
E nada fica.
Os olhos espiam o farol que espia o mar que me espia e me devora porque é pleno e imenso
E azul
E assim é.
Tudo, tudo...
Nada se reconhece ou
Se faz reconhecer ou
É demais e é tudo
E cansa porque é tudo e nunca se recorta.
Estas vias que aqui se cruzam
- e que se cruzam também em outros pontos -
Nem linhas têm.
Tudo o que há é um emaranhado de fios fragmentados disformes de cores-sem-fim
E há isto e aquilo e há tudo.
E assim se fazem estas vias.
Estão todas as coisas em mim.
E nada fica.
Os olhos espiam o farol que espia o mar que me espia e me devora porque é pleno e imenso
E azul
E assim é.
terça-feira, 1 de abril de 2014
(D)a janela da minha infância
Vi pelas grades (d)a janela da minha infância.
Os pés e mãos oscilantes sobre a grama,
as passadas duras e a intervenção do concreto.
Nas árvores, o tempo eterno,
doces frutos ou a fuga.
Sorrisos ou pássaros voam, falha a memória.
Debruça suas mãos, já enraizadas, nos filhos
- ou nas folhas -,
tamanho gesto maternal tem ela ou o vento.
O caminho de casa, o caminho do inverso
Prelúdio aos tempos que vinham.
Por entre o verde vi a mim, meus amores, todos os carinhos...
Tudo o que sei é que vi, de relance, aquilo que foi
E a vista encerrou-se em si mesma.
Cai a mansa relva na manhã minha de domingo.
Os pés e mãos oscilantes sobre a grama,
as passadas duras e a intervenção do concreto.
Nas árvores, o tempo eterno,
doces frutos ou a fuga.
Sorrisos ou pássaros voam, falha a memória.
Debruça suas mãos, já enraizadas, nos filhos
- ou nas folhas -,
tamanho gesto maternal tem ela ou o vento.
O caminho de casa, o caminho do inverso
Prelúdio aos tempos que vinham.
Por entre o verde vi a mim, meus amores, todos os carinhos...
Tudo o que sei é que vi, de relance, aquilo que foi
E a vista encerrou-se em si mesma.
Cai a mansa relva na manhã minha de domingo.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Fica
Ficou tua marca nas canções, nos pássaros e no vento,
Ficou tua marca no asfalto e em cada grão de areia quente.
Ficou tua marca na espuma das ondas,
Na espuma dos sucos,
Na espuma da esponja que insiste em cair.
Ficou você em meus cabelos, meus olhos,
em cada cílio meu ficou você.
Ficou você em minha boca, testa, orelhas - e ressoa -,
ficou você em meu nariz e queixo saudosos.
Ficou tua marca em minhas lágrimas.
Na minha estante, em minhas gavetas, em minha caixa de
memórias...
Ficou.
Em cada movimento meu ficou você.
Mas você não fica.
Então me esvaio, num rio caudaloso das águas que me sobraram,
- e a ti pertencem -,
Eu, parte esvaída, moribunda, faltosa,
Eu, parte abundante de todos os sonhos, de toda a ternura sua que me encheu
E me enche e me transborda ininterrupta.
Ficou tua marca no asfalto e em cada grão de areia quente.
Ficou tua marca na espuma das ondas,
Na espuma dos sucos,
Na espuma da esponja que insiste em cair.
Ficou você em meus cabelos, meus olhos,
em cada cílio meu ficou você.
Ficou você em minha boca, testa, orelhas - e ressoa -,
ficou você em meu nariz e queixo saudosos.
Ficou tua marca em minhas lágrimas.
Na minha estante, em minhas gavetas, em minha caixa de
memórias...
Ficou.
Em cada movimento meu ficou você.
Mas você não fica.
Então me esvaio, num rio caudaloso das águas que me sobraram,
- e a ti pertencem -,
Eu, parte esvaída, moribunda, faltosa,
Eu, parte abundante de todos os sonhos, de toda a ternura sua que me encheu
E me enche e me transborda ininterrupta.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Da ave que circunda os edifícios
Voa o pássaro por entre os edifícios desta cidade
A eternidade circunscrita nas asas e
a paisagem envilecida.
Esquecimento das coisas que certo dia foram e a exaltação do novo.
Voamos nós,
mar atado e mar azul de espuma.
Eu pássaro
Exaustos do imenso véu cinza que turva a visão.
Voos longos, rasteiros e fugitivos
Procura do etéreo.
Conversamos eu e ele
no compartilhar do amargo sentir da vivência entrelaçada
na toda tristeza que carrega o olhar vaguejante e solitário
de nós dois.
As asas a mim parecem faltosas
Mas vem a brisa e num sopro me diz, assim manso
Das coisas das asas e da existência delas
Do desprendimento que há delas do toque,
- do desejo manifestado do livre viver -
adornos mentais.
Voa.
A eternidade circunscrita nas asas e
a paisagem envilecida.
Esquecimento das coisas que certo dia foram e a exaltação do novo.
Voamos nós,
mar atado e mar azul de espuma.
Eu pássaro
Exaustos do imenso véu cinza que turva a visão.
Voos longos, rasteiros e fugitivos
Procura do etéreo.
Conversamos eu e ele
no compartilhar do amargo sentir da vivência entrelaçada
na toda tristeza que carrega o olhar vaguejante e solitário
de nós dois.
As asas a mim parecem faltosas
Mas vem a brisa e num sopro me diz, assim manso
Das coisas das asas e da existência delas
Do desprendimento que há delas do toque,
- do desejo manifestado do livre viver -
adornos mentais.
Voa.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Outro
Escrevo agora estas linhas porque logo
Já não sou mais eu quem vos escreve.
Escrevo por uma vida que transborda a falta:
de tempo
de vazio
de excesso
de fim
de toda e qualquer coisa.
Escrevo porque os passos são lentos e os dedos rápidos.
Escrevo porque quero esquecer e quero lembrar.
Escrevo porque quero arrumar porquês
Porque talvez eles sequer existam.
Nada quero saber
Senão quanto tempo dura o meu - duro, estancado - tempo;
e quando chegará.
Já não sou mais eu quem vos escreve.
Escrevo por uma vida que transborda a falta:
de tempo
de vazio
de excesso
de fim
de toda e qualquer coisa.
Escrevo porque os passos são lentos e os dedos rápidos.
Escrevo porque quero esquecer e quero lembrar.
Escrevo porque quero arrumar porquês
Porque talvez eles sequer existam.
Nada quero saber
Senão quanto tempo dura o meu - duro, estancado - tempo;
e quando chegará.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Previsão
Nesta noite sem fim são trezentas e sessenta e cinco palavras que dilaceram o peito da pior das maneiras. Nunca outrora vistas, as águas de todos os tempos descem por estes olhos. Olhos que sempre estiveram secos em sua condição humana; olhos essencialmente secos mas perturbados por outros. Olhos nunca antes perturbados. Agora estão devastados, líquidos, diluídos num corpo que almeja ser diluído. As paredes se fecham, o teto desaba. O coração flagelado suspira algumas mais vezes. Mas os olhos, estes perdem a função de diluir a beleza. Já não mais fazem sentido. Olhos da multidão voltados ao céu. A multidão de repente me encara e os céus desabam. Já não há mais multidão. Há eu, o coração entregue, os glóbulos sinistros presos em minha face e nada mais. Nem ninguém.
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