quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Previsão

Nesta noite sem fim são trezentas e sessenta e cinco palavras que dilaceram o peito da pior das maneiras. Nunca outrora vistas, as águas de todos os tempos descem por estes olhos. Olhos que sempre estiveram secos em sua condição humana; olhos essencialmente secos mas perturbados por outros. Olhos nunca antes perturbados. Agora estão devastados, líquidos, diluídos num corpo que almeja ser diluído. As paredes se fecham, o teto desaba. O coração flagelado suspira algumas mais vezes. Mas os olhos, estes perdem a função de diluir a beleza. Já não mais fazem sentido. Olhos da multidão voltados ao céu. A multidão de repente me encara e os céus desabam. Já não há mais multidão. Há eu, o coração entregue, os glóbulos sinistros presos em minha face e nada mais. Nem ninguém.

domingo, 10 de novembro de 2013

o grande vazio

o palpitar desesperado do peito
a boca salina, o rosto úmido,
os dedos mudos
nenhum som.
uma longa trilha de brasas
leva-me ao jardim de troncos pendentes.
espinhos gigantes impenetráveis
rosas tingidas, ver-melho conducto.

os olhos estão pendurados

penetra o orvalho no buracoabismo.
tateio as paredes
os olhos delirosos.
viscoso chão ao que me debato
os olhos delirosos.
as unhas arranham a parede de musgo,
ver-de por todo lado
caem as rosas sob a minha face
(agora desconhecida)
decompus-me
e distinção não mais se faz entre nós.
eupoço.
a goteira intermitente atinge
os olhos do subsolo.
nascem cravos negros no cimento-semblante.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Pressa

Seis horas da tarde, correm eles pela avenida
dizem-me: os braços se encostam,
os dedos voam,
os cabelos abraçam a brisa macia.
Rostos que adornam o cinza
dizem-me até: há alguma ternura,
algum carinho,
alguma palavra entreaberta.
Despetaladas voam as flores pelo asfalto
dizem-me mais: há riso.
as bocas horizontalizadas beijam a mesma brisa
que os cabelos outrora abraçaram!

há um tanto
um punhado
de algo no ar
que não polui
nem perverte.

há um tanto
Seis horas da tarde, correm eles pela avenida
de algo no ar.
Param os relógios
Seis horas da tarde.



domingo, 3 de novembro de 2013

Impossível, impassível

O pronome ou a locução pronominal
O peso das duas coisas.
O peso sob os ombros.
O peso sobre mim.

Porque se houveram nós
Não há outros que possam separar.