segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Pazsado

Pensa hoje no tempo que passou
pensa no passo estreito
pensa nas meninas ainda pintadas de branco

Pensa no tempo perdido,
no peito plano e pleno e perdido
que jorrava incontido
e hoje está estancado

Pensa no estampido
e na luz que brotava do céu de verão

Pensa hoje
para amanhã esquecer

O pássaro de longas asas passa distante
porque esqueceu de pensar
porque esqueceu de querer



domingo, 19 de agosto de 2012

Nada muda, tudo acaba

Só restou o arrepio
A voz de trovão
E a nenhuma tempestade.

Só restou o tremor
O pulsar no coração
A tristeza no peito.

Acabou
Aquilo que nunca existiu
E acabou com o riso
Antes inteiro.

domingo, 12 de agosto de 2012

As lágrimas são só os vestígios daquilo que o peito confuso e triste sente.
Hoje é dia de lágrimas.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Milágrimas

"Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre"
Ruiz, Alice.

Verdades sobre caminhos e pedras

As pedras nunca deixam o caminho
Porque o caminho é feito de pedras.
A quantidade de pedras num caminho
É proporcional ao tamanho dele.
O caminho pode ser um palmo de pedras
Ou então o número de todos os palmos.
Os palmos podem ser pequenos ou grandes
Depende de qual caminho se fala.
As pedras são inquebráveis
Mas podem ser deslocadas para outros caminhos.
Os caminhos podem ser tortuosos
Depende de quem caminha por eles.
As pedras de um caminho
Podem se cruzar com as pedras de outro.
As pedras de um caminho 
Podem não se cruzar com as pedras de outro.
As pedras de um caminho
Pertencem a um só caminho
Pertencem a um só caminhante
Ou pertencem a caminhantes sós feitos de pedra
Ou pertencem a pedras feitas em caminhantes
Ou pertencem a nada senão o caminho.
São pois as pedras e os caminhos
Unidos em caminhos de pedra.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tecendo

Dentro dos carinhos
Perdem-se e encontram-se
As ávidas almas da noite.
E nos túneis escuros das bocas
São línguas as luzes que abrem caminho
Caminho de brasa e de sonho.
Braços e mãos entrelaçadas
Olhos grudados na pele quente
Bocas vermelhas de desejo.
Orelhas, bochechas, queixos
Tudo é rosto, tudo é corpo
Tudo é extensão daquilo que se sente.
Corpos juntos, corpos separados
Vidas separadas
Sonhos que aparecem e passam.
E o resto é lembrança.

domingo, 1 de julho de 2012

com-plemento

Com
plemento
Mar
Terra
Vento
Terra
Mar
Eu
Ele
E os aviões
E os mexilhões
E os cubos de gelo.
O que seria da valsa
se não existisse o minueto?

Mar
Terra
Vento
Terra
Mar
Um navio no fundo mar
Cinema
Preto e branco
ou
Pretos brancos
Todas cores em relevo
Relevantes
Ou só é a pseudo totalidade?

Falso ou verdadeiro
Bom ou mal
Tudo é final para a mesma finalidade
Tudo
Mar
Terra
Vento
Tudo
complemento.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Adeus

Fecharam as portas
Fecharam os olhos também.
Emudeceram as vozes, que,
Perdidas no passado,
Tornaram-se pontos de luz
No poço infinito da vida.

As ideias mudaram, as vidas passaram
O tempo continuou
E a única resposta foi o vazio
Nada além do último riso guardado
Nem além da vontade malquista.

Silêncio nas árvores, silêncio no corpo
Dia de cantar eterno.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Mar aberto


Se mar seus olhos fossem
Embriagados seriam os peixes, puro sal
Sol, lua, vento e chuva torrencial
Coral de vozes coloridas a passear.

Se onda seus movimentos fossem
Estrelas do céu cairiam na espuma
Toda agitação uma pluma
Todas as conchas em você, alojar.

Se areia sua boca fosse
Grãos infinitos por todas as praias
Nova morada dos deuses e das jandaias
Doce umidade, convite a ficar.

sábado, 9 de junho de 2012

Aparição noturna

Algumas lâmpadas iluminam a noite, mas a cidade está escura. O inverno está debruçado. Os corpos passam pelas ruas e misturam-se em infinito vai-e-vem, que aquece os corpos e sacode as almas. Sentado no bar, espera a queda do mundo ou sua mistura em toda a gente que precisa.
Os dentes estão quebrados pelos anos, o corpo denuncia cansaço e os braços são fortes. São. Os anos caem no corpo como caíram nos dentes, e a pele é morena nascida no sol de Cuiabá. Os olhos resplandecem: iluminam e quedam sobre os nossos como brasa em dia de inverno, que sustenta e revitaliza o tudo que parecia um grande e morto nada. Os olhos são luz intensa na noite amarelada de São Paulo.
Seu produto é o amendoim, sua alimentação é o amendoim, suas crianças: amendoim. "Se há desgraça nessa terra, ela trata de abraçar os filhos mais repletos", pensou. E abraça apertado, sufoca, envenena - não consegue concluir o trabalho. Os braços são fortes, e o abraço letal virá deles (mesmo eles tão cheios de vida). "Não se deixa desgraça me segurar não!".
A boca maltratada canta e lembra os sons antes ouvidos. Os olhos são puro brilho e imagem. Amor. Se existe amor, ele está ali naquele homem. Ele leva a vida, e não o contrário. Ele leva o amendoim, puro grão e pura vida, para que seja levado à família.
Se existe amor, ele está ali naquele homem que canta e ri como se tudo fosse beleza, mesmo em plena desgraça.
E o amor segue seu caminho, enquanto a noite cai por completo naquela esquina. Mas, por dentro, a claridade é caminho imenso no peito do poeta.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Circunflexo

O vôo circunflexo de uma ave, 
ponto de exclamação e convergência 
de um olhar mais que nítido: vazado. 
(— E, transpassada por um vento externo e interno, 
a praça, com janelas para a praça.) 

Deixamos de esperar que alguma dança 
perdoe nosso espaço alucinado. 
O desenho dos gestos se extravia, 
a dor se agrava, grava em nós seu mapa. 

Pouco faltou para que nosso invento 
tivesse sopro, fosse além do traço: 
navegação, mais rápida que a barca, 
ia tecendo sua própria água. 

As linhas, uma a uma, caem mortas 
diante desta manhã, trava, aguçada 
pelas doces palavras 
desarmadas. 



In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Secando ao vento

Seco, sêco
De mansinho
Só armadura resta.

Vão-se os corações, vão-se as tuas
Lágrimas explosão
Seca também a árvore.

Secam as ruas e os olhos contemplação
Vive à sêco e espirra pó
Segue.

Tempo distante, mente glacial
Seca tudo à sua volta
Tristeza de mil eras.



quarta-feira, 30 de maio de 2012

Troca


Olhos por todos os lados.
Globos oculares matizados das mais cores
Derrubados mecanicamente
Num doce encontro estilhaçado.

Olhos de vidro com todo movimento 
E toda a perícia de permanecerem no anonimato
Em meio à multidão, desconhecida e inquieta
Olhos voltados ao céu.

Olhos nossos desencontrados no espaço
Inoportunos em todo ensejo
Esquecidos em suas imensidões multicoloridas e ainda alvas
Preenchidos em desejos
Envoltos em cristal.

Olhos seus 
Eterno retrato dos olhos que viu, verá e vê
E que em novas cores transformará
Tela impassível, farfalhar das folhas e orvalho retido.

Olhos meus
Perdidos em profunda miopia na vala desgraçada
Esquecidos na esquecida ala do trem que leva a multidão - que rodopia
E extrai os gloriosos aparelhos de visão.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Fragmentando

Fuga desesperada.
Esperando o cair da noite
E a poeira das estrelas
Observo a luz que vem dos olhos
Fico.
Fico mas fujo.
Pois quero fuga, quero pés incansáveis
E resistência
Para que resista aos contornos
E não resisto!
Numa fusão entre contornos, bocas, olhos e cores
Me perco.
Mas fujo
E perdida fujo
De todos os nós
Torcendo para que tudo
Acabe em nós
Desfeitos.

sábado, 26 de maio de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Pretume

Noite, mãe da escuridão e dos gritos abafados,
Cobre com seu véu moribundo os olhos pretos e enormes,
Vela pelos corpos gelados que esquentam a vala.
Segura o dia, sustenta o torpor, afunda o poeta.
Aleita tua filha, tão fina e tímida:
Dela há de ter recompensa em poucos luares.
Abraça nuvens e estrelas e homens descartados.
Escarra teu ódio em água, faz dilúvio
Queima em brasa os corações para que os corpos façam brasa.

Catarata sem fim 
é a noite dos desgraçados



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Dissolução


Desvaneceu em súbito
E diluiu o que outrora foi soluto
E que em solução se perdeu.

Em mistura homogênea
Separou-se o sentido do princípio
E em béquer sinistro sopro gélido cresceu.

Em forma de gotas, foi liquefeito culto,
De batuque intermitente a vigoroso rio conduto
Que em estiagem profunda, sem fim, findou em museu.

Escondo em véu hoje meu pranto
Decanto o sentimento sacrossanto,
Finco a bandeira do pouco-amor desfalecido,
Do saber do outro proibido,
Da eterna indissolução do retrato-labirinto que se tornou eu e você.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Caduca

(e)S(t)ou, pois, senão, um conjunto de regras ambulante. Triste foi o momento em que deflagrei tal fato. Num instante peguei-me a professar uma frase (ou será sentença?) daquelas que sentam em cadeiras e esperam a vida passar. "Sabe qual é o problema? Quarta-feira não é dia 'disso'. Deveria estar em casa." Estado de alerta soou em minha mente. "Que papo é este?" Sei não. Sei sim! Quem disse que segunda é dia de tristeza e sexta dia de festa? Cadê aquele tal livre arbítrio que foge pra onde quer, sem deixar cartas nem bilhetes, que volta em sorrisos de madrugada?
Em que momento roubaram a beleza do levar-se? Cadê minha criança perdida em pensamentos desconexos?
Roubaram, e é de meu direito tentar resgatar meu tesouro perdido. No entanto, hoje é quarta! Não posso alongar-me. Afinal, hoje é quarta? E livros e recolhimento me esperam. Hoje é quarta, mas só deveria ser dia.

domingo, 25 de março de 2012

Nó na língua


Em minha boca cê podia sê nuvem,
mas cê num vem.
Podia sê também nós, amor,
mas cê foge assim, desatado,
quando a gente podia tá se amarrando
num píer, de modo que a gente podia desatracá,
e fugir, em barquinho, pra céu e mar
E brincá de peixinho e bubulhá,
e dá beijinho e no fundo perolar
pra quando o sol se postasse, a gente postá junto
e atracá e virar nós em nó de nosso mundo.

sábado, 3 de março de 2012

Boca de Luar

- Você tem boca de luar, disse o rapaz para a namorada, e a namorada riu, perguntou ao rapaz que espécie de boca é essa, o rapaz respondeu que é uma boca toda enluarada, de dentes muito alvos e leitosos, entende? Ela não entendeu bem e tornou a perguntar, desta vez que lua correspondia à sua boca, se era crescente, minguante, cheia ou nova. Ao que o rapaz disse que minguante não podia ser, nem crescente, nem nova, só podia ser lua cheia, uai. Aí a moça disse que mineiro tem cada uma, onde é que se viu boca de lua cheia, até parece boca cheia de lua, uma bobice. O rapaz não gostou de ser chamada de bobice a sua invenção, exclamou meio espinhado que boca de luar, mesmo sendo de luar de lua cheia, é completamente diferene - insistiu: com-ple-ta-men-te - de boca cheia de lua; é uma imagem poética e daí isso não tem nada que ver com mineiro, ele até nem era propriamente mineiro, nasceu em Minas por acaso, seu pai era juiz de direito numa comarca de lá, mas viera do Rio Grande do Norte, depois o pai deixou a magistratura e se mudou para São Paulo, onde ele passou a infância, mudando-se finalmente para o Rio com a família. Ah, disse a moça, você ficou zangado comigo, diga, ficouzinho? bobo, te chamo de bobo como te chamo meu bem, fica nervosinho não, eu agora estou sentindo que o que você falou é uma graça, boca de luar é legal, olha aqui, vou te dar um beijo superluar, você quer? Ele ensaiou uma cara de quem não faz questão de ser beijado, mas os lábios da moça estavam já assumindo a forma de beijo, avançavam para ele num movimeno que parecia comandar e concentrar todo o corpo, como resistir? Pois resistiu, se bem que com intenção de ceder: daí a pouco. Não ficava bem desmanchar a zanga assim tão depressa, ela ia ter a impressão de que ele nem sabia ficar com raiva, a simples oferta de beijo o amolecia, e que seria do casamento deles, se houvesse casamento? Não é que pensasse em casar com a moça, longe disso, não pensava em casar com ela nem com moça nenhuma nos próximos 10 anos, mas é bom manter a linha de durão mesmo sem perspectiva de futura manutenção de autoridade. É da lei não escrita, homem ficar emburrado e não fazer por menos. Então é assim? falou baixinho a moça, você não quer o meu beijo oferecido de coração, pois não vai ter mais nenhum nem agora nem depois de amanhã nem nunca, ouviu, seu bolha? E os lábios recuaram tanto que foi como se despregassem do rosto ali diante do moço zangado e fugissem para longe, para onde nem sequer fossem vistos, e escusa de procurar, porque boca de boca desprezada some na nuvem mais escura, por trás daquela serra para os lados de Teresópolis. E eu vou sofrer com isso? o moço não disse mas falou consigo mesmo, que bem me importa se ela não quer mais me beijar, eu beijo outras, beijo a prima dela, beijo milhões e acabou-se. Mas a moça, que despachara os lábios para o sem-fim, continuava diante dele, muito saborosa e séria, séria e saborosa, aquela pele fina e dourada, aqueles olhões, quele busto, aquilo tudo de primeiríssima beleza, sem falar na boca ausente mas presente, sabe como é? Ele não sabia, mas a vontade de provar o beijo reapareceu depois que o beijo fora recusado para todo o sempre, e o rapaz avançou o braço direito para pegar docemente no queixo da moça, quem disse que o queixo cedeu? Ele fez um gesto mais positivo, tentando segurar o ombro da moça, o ombro esquivou-se ao toque, embora ela não recuasse. Continuavam próximos um do outro, a uma distância infinita do entendimento. Forçar o beijo seria besteira, ela cerraria os lábios, a boca de luar não se abriria na aceitação úmida da sua. E que gosto pode ter beijo roubado, se até o que não é roubado costuma ser insípido quando as duas partes não se movem pelo mesmo impulso de doação e devoração? A moça visivelmente esperava o ataque, ele visivelmente se proibia de atacar, isso durou um tempão, com o beijo parado em potencial entre os poucos centímetros de uma boca a outra, eis senão quando - ui! - uma formiga, não mais que uma formiguinha, vinda de não se sabe que subterrâneo preparado para expedi-la, em momentos que tais, começou a subir ziquezagueando pelo pescoço da moça, ela deu um grito, ele precipitou para caçar a formiguinha, os rostos tocaram-se, os lábios também, e o beijo desabrochou, flor na ponta de duas hastes conjugadas, superlunar e inevitável, beijo fluido e forte, resultante da incompreendida imagem poética ou da formiguinha encomendada, quem sabe, pelo rapaz? ou pela moça?




Carlos Drummond de Andrade.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

À lua e ao mar

Criamos castelos adornados e transformamos mortais em reis
Desvanecemos em sonhos dourados, pensamentos roubados e numa vida de leis
E tudo é de tão plena beleza e comodismo que sentamos no campo e nos deixamos rodar.

E os castelos são de areia,
Os reis, de latão.
Os sonhos, pensamentos, leis - mentiras das mais lavadas
E tudo o que há, falsa beleza e comodismo naturalmente humano.

E só uma ideia roda: construímos mentiras sobre mentiras
E de areia fazemos castelo falso que se esvai em mar.

Tamanha verdade é o mar
Que de promessas escuras faz imenso azul espumante
Que em parceria com o tempo, constrói cenários
Que beija a lua em noites de verão.

Devemos ser mais mar e pouco latão.
Devemos ser mais lua e mar, juntos, em plena comunhão.


Don't Speak - No Doubt


"And if it's real
Well, I don't want to know."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Platônica

Eu imersa em livros e histórias, porque as minhas são entediantemente reais. Eu imersa em vidas de planos irreais, porque a minha é suficientemente chata e comum. Eu, pouco imersa em mim, tão dilacerada em alma e cicatrizes, tão desinteressante. Ah, como amo os livros. Como amo os poetas, como fingem bem, como finjo bem. Como amo a vida que não tenho, as aventuras que não vivi e os amores que jamais viverei. Sou mesmo platônica. Sou mesmo apaixonada por tudo aquilo que nunca poderei ter, e isso muito mais me acalenta o espírito do que o possuir.
Arrependimentos e mais arrependimentos. No popular, pra que mexer em time que tá ganhando?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Somente

Nem sempre a desistência é sinal de abandono,
Nem todo abandono pode ser concretizado,
Nem toda chama apaga ao todo,
Nem todo amor some e morre mesmo sem ter sido amado.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Hibridismo

As vezes percebo: cresci. Tudo se encaminhou e... Cresci! Noutras vezes, percebo: sou criança! Nada além de criança! Como sou híbrida, mutante, inconstante...Humana! E como é duro entender o que passa.
Meu lado maduro se manifesta da pior forma, coberto de inseguranças, timidez e escuridão. Por outro lado, também demonstro maior compreensão às manifestações da vida e necessidade de preenchimento intelectual, moral, emocional. Tenho também um orgulho irritantemente adulto em mim. E certa indiferença que bate, sem avisar. E muitos mais outros lados, que custo a interpretar a forma como se dão.
Depois, vem o lado infantil. Trato do amor com timidez: tudo parece tão novo e, as vezes, engraçado! Não tenho aquela malandragem adulta, nem sensualidade típica de minha idade. Sou boba, na maior parte das vezes. Não me desfaço em máscaras para atrair pessoas. Sou aquilo que me convém - faço aquilo que me convém. Tão despretensiosa com a vida! Tão despretensiosa com tudo! Sinto-me formiga diante do mundo. Sinto-me perdida diante de tamanho absurdo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Primavera minha

Não desejo espaço nem notas de desculpas
Muito menos bons olhos olhando pelos meus
Lamúrias, então, quero distância.

Quero florescer dentro de mim
Quero desgostar do desgosto.

Quero só amor, cartas de alegria, frevo na madrugada
Quero ver mar calmo e areia límpida
Quero infinito em meu eu,
quero nascer ao sol e viver em primavera.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Coisas do coração

Tenho aquele desejo de abraço, de cuidado, de brincar. Tenho sorrisos guardados no peito, prontos para voar. Tenho histórias a serem contadas, poesias a serem recitadas e amores a pular. Tenho ouvidos dispostos, músicas pré-programadas e meu amor a mostrar. Tenho paciência. Peço clemência. E cartas de sentimento e lágrimas de minha alma quero resgatar.

Texto consideravelmente antigo, também guardadinho nos rascunhos.

Egoísmo



Tão puro e perfeito o amor dos românticos,
vivê-lo é a sensação de um céu de mil maravilhas.
Quero parar no tempo e sentí-lo - por mais doloroso que o seja
quero deitar nas nuvens e contemplá-lo junto ao canto dos anjos,
quero cair em mim e voltar e cair e voltar - me perder.
Não quero lamúrias nem tristes realidades postas em meus ombros,
quero cair numa vala de flores diversas e afogar-me em essências de ternuras das mais infinitas,
quero amar do mais profundo limbo de minh'alma,
quero dar a meu pranto delícias atemporais,
fazer de meu amor carinhos de sal e calma.

Texto antigo, guardadinho nos rascunhos.

Sentir

E de minha janela observo os pássaros.
Há uma ingenuidade que carregam enquanto pulam de galho em galho
Quem são seus predadores? Existem predadores? Pois deixe que sejam.

No canto, a natureza se propaga: são genuínos, cantam por que têm de cantar
Cantam pela sobrevivência
Cantam por uma necessidade súbita de serem pássaros
São seres, por toda a palavra.

E há amor profundo pela árvore. Por esta, especialmente, que os acolhe e dá espaço à vida,
mas também por todas as outras árvores que vida os daria.
E brincam, bebericam a água da chuva, fazem ninhos
São parceiros, são bando, são silêncio cantado em novilho.

Vivem por aquilo que amam ou amam por aquilo que vivem?
Vivem. Na absoluta beleza do sentir e do ser. No ignorar natural da complexidade.

São só pássaros, enfim.
Sou tão pouco pássaro. Sou tampouco pássaro.
Sou só.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A dificuldade

Desaprendi a lidar com a saudade. Depois de tanto tempo e de tantas cicatrizes profundas, tal sentimento parou de confrontar-me nas horas mais vazias. Sinto agora toda essa corrente percorrer meu corpo, e pouco sei como atender ao chamado.
Somos dois desconhecidos, procurando algum sentido no encontro. Trocamos algumas palavras, comentamos sobre trivialidades e evitamos o contato visual. As mãos estão frias, mas desejam o toque dentro do silêncio. A ponte que vai de mim a ti é fraca, apesar de suportar algumas viagens iniciais - das quais não ouso inaugurar. Quando observo, tudo parece muito claro: somente o que nos separa é aquilo que foi perdido no passado. Fui deixada por ti, e tudo agora é tão novo que sempre sou pega em sobressalto.
Quando me ensinará a dominá-la novamente, Saudade? Quando me mostrará novamente o caminho longe de terreno minado?
Quero ser sentimento e poder. Poder controlar-me a não me perder (Nele).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Timidez

"Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei."

Cecilia Meireles

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Felicidade

O desejo da felicidade é tão falso quanto aquilo que sou
É utopia, é pretensão absoluta.

Aquilo que caminha bem há de uma hora se estabacar.

E amamos tantos momentos. E desejamos tantas vidas.
E somos nada diante disso: passamos vitimados ao esboço de felicidade.

Aquilo que amamos há de uma hora deixar levar-se.

A felicidade é como sorrisos caindo com a chuva,
é como mãos ávidas se entrelaçando de amor eternamente,
uma profusão de sentimentos absolutos,
é uma lágrima escorrer de vida e voltar em orvalho, fresca, reconfortante.



Voando

Não sei o que se passa em minha mente. Na verdade, sei sim. Passa você. Passa o tempo e passa você. Passa sua voz. Passa sua expressão. Passa seu sorriso. E voa, tudo numa coisa só. E vôo junto em pensamentos caducos. Deveria passar o sentimento também, mas só anda passando seu nome. Então, só passo mal. Passo mal e bem. Tudo junto, ali, ora passando fala, ora passando espanto. Que faço para tamanha situação passar? Desejo passar? Não. Passa você e passo por cima.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dose diária

E é tortura cruel e fria e patética
Pela qual me submeto
Há segredos que guardamos, com severa pena de aguardar - eternamente
Que matam, desgastam, acabam com o pouquinho que resta - diariamente
E não há sequer esperança
E tento me esquivar, mas não consigo.

E minha paixão se faz viva ao mesmo tempo que deixa perder.

Incógnita

E chove. Chove um pouco dentro também. Alivia um pouco a exaustão do inverno. E canto um pouco. E não sei de verdade o que se passa. E sinto as brisas do inverno. E não quero sentir, mas sinto! E sinto, com ar de decadência, com ares de pesar. Onde chegarei, pergunto-me. É uma incógnita da qual queria resposta. Da qual precisava resposta.

Aparição amorosa

"Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?"

Drummond.
"E os olhos não choram
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
E o coração está seco."

Os Ombros Suportam O Mundo - Carlos Drummond de Andrade

E sempre deveria ter estado.

Mãos vazias

Nunca poderemos mudar um não. A afirmação negativa é a maior expressão da alma. E a alma, essa, nunca muda. Pode hesitar, mas a resposta sempre continuará sendo não.
Não há nada a ser feito: à alma, só resta descanso.
E aos ouvidos, som intermitente de voz serena.
E às mãos, vazio.

Insolubilidade

Hoje é dia de inverno.
Não ao meu redor. Mas dentro de mim, é inverno.
E por isso, vou dormir. Num sono profundo, decadente, insolúvel.
E não quero que me acordem: quero estar próxima ao óbito. Quero partilhar meu espírito com as profundezas.
Quero cair num terreno ermo e seco, quero permanecer no vago.
Um dia, quem sabe, volte. E será primavera novamente.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Execução

Se entre você e eu houver empecilho,
então meu coração será gatilho
e minhas palavras, munição.
Dilacerarei seu peito de forma gentil,
e amarei cada pedacinho que ousar revolução.
Das tuas palavras farei decreto,
da sua voz, canção
E todo o nosso diálogo será um mar aberto,
E o meu amor, imensidão.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Rascunho - Parte IV

Sofro desse sentimento ruim, e não há mais espaço para convivência entre nós. Sou eu ou ele. Não há mais coração que suporte reter tanta informação. Não há mais amor que baste. Não há mais alegrias que bastem. Sofrerei mais, sim, mas expulsarei ele de mim. Porque sofro daqueles bem-ruins-pintados-de-preto, que muito dão as caras e acabam com a gente.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Poesia corrida

O amor em laço ao lado dos córregos,
Os olhares gostosos nos ônibus de "quero chegar logo em casa",
As mãos que brincam nas calçadas,
As brincadeiras exaustas de cansaço e paixão nos vagões apressados do metrô,
Tudo é expresso e inteiro, tudo é cinza e concreto.

São Paulo é só pressa:
Pressa de amar
Pressa de chegar e encontrar uma doçura que nas ruas é inexistente,
Pressa que só o peito sente.

Hei de voltar

Nada é tão bonito e certo e inicial quanto
O fundo
As amarguras, na verdade, estão só
No fundo
E o amor é uma dádiva da vida mas só
Profundo
E os olhos são grandes e imersos
No mundo.

E a alegria só dá passo ligeiro direto
E a cabeça só dana a girar
E no peito instala chama - que ama e esvai
E canta e voa ao doce limiar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Jogando fora

Abrimos todos os dias nossas torneiras e esvaziamos nossas caixas d'água
E num fluxo infeliz de água rolando nossa sujeira vai junto, toda despedaçada.
A água não volta. A sujeira, ao esgoto ruma. E nós, onde vamos com tamanho desperdício?
Somente ao coração cabe a resposta. E à sujeira, quem sabe.
Why the heck I have so many readers from random countries? Germany, Ukraine and United States?
Man, I don't even write my stuff in english. I'm not complaining, I'm just asking. Please send your comments!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Solícita

Sou só espaço pra verdade (mentira)
Sou só rumor na boca lasciva.

Sou só encanto neste espaço que não deixa mostrar,
Sou só calor na pele que guarda na alma o pesar.

Sou só canto
Sou manto de espanto
Sou água do mar, que flui e deixa levar,
sou só.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Rascunho - Parte III

Variações de humor. Pra quê tanta intensidade?
Essa constante vontade de nada. E de tudo.
Certa hora amo, outra odeio.
Que faço, pergunto. Fica aérea a questão.
Quero ter tudo em minhas mãos. E, quando tenho, jogo aos ares: já não me interessam mais. O genuíno desejo da superfície.

domingo, 29 de janeiro de 2012


Rascunho - Parte II

A poesia imita a vida ou a vida imita a poesia?
A vida é poesia, macabra ou amiga.

A vida é poesia macabra.

-

Tantos anos eu vejo no passado
Que ainda são tão presentes
E quantas vezes ainda vão se repetir - eu não sei
Só me indago e nas lágrimas afundo.

Ando certa de que o destino existe,
E o meu nunca antes foi tão claro:
Sou o novo Fabiano.
Você é um bicho, Natalie
E sempre esteve na fila do abate
À espera do açoite - tão presente
À espera de uma mudança - que nunca aconteceu verdadeiramente.

-

Me pergunto sobre a minha alma
E noto só vazio no lugar dela
Só restou um corpo miserável pronto para o golpe final na carcaça.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Rascunho - Parte I

Gostaria que não fosse, nem tampouco ficasse. Bom seria se tudo fosse deixado para trás e ficasse só aquilo que tem de ficar. Mas que espero, hoje? Vou, fico? Deixo estar. Não faço nem passo. Nem canto nem grito. Aguardo. E uma nova página - um dia, quem sabe - será preenchida. E rabiscos desconexos e cores em um só tom hão de ficar.
Werther, mais do que ninguém, me entende.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A última gota

O mundo é mundo
desde o mudo,
do curdo,
do absurdo.

O caos é um saco infinito
De armas santificadas
De homens sacrificados
De doenças expectoradas.

E eu, um pedaço de sombra e descaso,
De alma todos os dias açoitada por um carrasco - que só eu bem conheço
Só tenho a chorar e gritar e escrever
E suplicar por amor
E esperar a execução.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Surge eu

A vida é um processo longo e contínuo. Majestoso. É um evento, de tantas parcerias e convidados, de tantos comes e bebes (no lato sensu) e de poder - este que passa, tal como uma coroa. Tudo passa. Tudo cura. Tudo renasce, vive, morre, canta, esperneia. A vida é um amor adolescente, de idas e vindas, de paixões intensas e total indiferença, de gritos e emoções, de longas despedidas ao telefone e beijos nas sacadas.

No começo, não faz sentido. Nem deve. É só explosão.


Passa o tempo, passam as pessoas, passam as brincadeiras, passam os primeiros-amores (são tantos), passa a alegria de ver a lama empoçada e fazer dela momento de alegria. A verdadeira vida, crua e vivaz, passa.
SURGE EU.
Surgem outras vidas, complementares ou não. Surgem novas sacadas para novos problemas - e ah, estes, estes sim surgem com frequência. Somos grandes problemas procurando outros ainda maiores.

Surge o trânsito-amor-estresse-estareiaílogologo. Surge sempre, indo contra o nosso instinto reclamão.
E vai a vida, com seus propósitos despropositais. Muda. Emudece. Agradece a mudança, prossegue, ama de novo.

E cai.