Fecharam as portas
Fecharam os olhos também.
Emudeceram as vozes, que,
Perdidas no passado,
Tornaram-se pontos de luz
No poço infinito da vida.
As ideias mudaram, as vidas passaram
O tempo continuou
E a única resposta foi o vazio
Nada além do último riso guardado
Nem além da vontade malquista.
Silêncio nas árvores, silêncio no corpo
Dia de cantar eterno.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Mar aberto
Se mar seus olhos fossem
Embriagados seriam os peixes, puro sal
Sol, lua, vento e chuva torrencial
Coral de vozes coloridas a passear.
Se onda seus movimentos fossem
Estrelas do céu cairiam na espuma
Toda agitação uma pluma
Todas as conchas em você, alojar.
Se areia sua boca fosse
Grãos infinitos por todas as praias
Nova morada dos deuses e das jandaias
Doce umidade, convite a ficar.
sábado, 9 de junho de 2012
Aparição noturna
Algumas lâmpadas iluminam a noite, mas a cidade está escura. O inverno está debruçado. Os corpos passam pelas ruas e misturam-se em infinito vai-e-vem, que aquece os corpos e sacode as almas. Sentado no bar, espera a queda do mundo ou sua mistura em toda a gente que precisa.
Os dentes estão quebrados pelos anos, o corpo denuncia cansaço e os braços são fortes. São. Os anos caem no corpo como caíram nos dentes, e a pele é morena nascida no sol de Cuiabá. Os olhos resplandecem: iluminam e quedam sobre os nossos como brasa em dia de inverno, que sustenta e revitaliza o tudo que parecia um grande e morto nada. Os olhos são luz intensa na noite amarelada de São Paulo.
Seu produto é o amendoim, sua alimentação é o amendoim, suas crianças: amendoim. "Se há desgraça nessa terra, ela trata de abraçar os filhos mais repletos", pensou. E abraça apertado, sufoca, envenena - não consegue concluir o trabalho. Os braços são fortes, e o abraço letal virá deles (mesmo eles tão cheios de vida). "Não se deixa desgraça me segurar não!".
A boca maltratada canta e lembra os sons antes ouvidos. Os olhos são puro brilho e imagem. Amor. Se existe amor, ele está ali naquele homem. Ele leva a vida, e não o contrário. Ele leva o amendoim, puro grão e pura vida, para que seja levado à família.
Se existe amor, ele está ali naquele homem que canta e ri como se tudo fosse beleza, mesmo em plena desgraça.
E o amor segue seu caminho, enquanto a noite cai por completo naquela esquina. Mas, por dentro, a claridade é caminho imenso no peito do poeta.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
Circunflexo
O vôo circunflexo de uma ave,
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Secando ao vento
Seco, sêco
De mansinho
Só armadura resta.
Vão-se os corações, vão-se as tuas
Lágrimas explosão
Seca também a árvore.
Secam as ruas e os olhos contemplação
Vive à sêco e espirra pó
Segue.
Tempo distante, mente glacial
Seca tudo à sua volta
Tristeza de mil eras.
De mansinho
Só armadura resta.
Vão-se os corações, vão-se as tuas
Lágrimas explosão
Seca também a árvore.
Secam as ruas e os olhos contemplação
Vive à sêco e espirra pó
Segue.
Tempo distante, mente glacial
Seca tudo à sua volta
Tristeza de mil eras.
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