Escrevo agora estas linhas porque logo
Já não sou mais eu quem vos escreve.
Escrevo por uma vida que transborda a falta:
de tempo
de vazio
de excesso
de fim
de toda e qualquer coisa.
Escrevo porque os passos são lentos e os dedos rápidos.
Escrevo porque quero esquecer e quero lembrar.
Escrevo porque quero arrumar porquês
Porque talvez eles sequer existam.
Nada quero saber
Senão quanto tempo dura o meu - duro, estancado - tempo;
e quando chegará.
sábado, 7 de dezembro de 2013
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Previsão
Nesta noite sem fim são trezentas e sessenta e cinco palavras que dilaceram o peito da pior das maneiras. Nunca outrora vistas, as águas de todos os tempos descem por estes olhos. Olhos que sempre estiveram secos em sua condição humana; olhos essencialmente secos mas perturbados por outros. Olhos nunca antes perturbados. Agora estão devastados, líquidos, diluídos num corpo que almeja ser diluído. As paredes se fecham, o teto desaba. O coração flagelado suspira algumas mais vezes. Mas os olhos, estes perdem a função de diluir a beleza. Já não mais fazem sentido. Olhos da multidão voltados ao céu. A multidão de repente me encara e os céus desabam. Já não há mais multidão. Há eu, o coração entregue, os glóbulos sinistros presos em minha face e nada mais. Nem ninguém.
domingo, 10 de novembro de 2013
o grande vazio
o palpitar desesperado do peito
a boca salina, o rosto úmido,
os dedos mudos
nenhum som.
uma longa trilha de brasas
leva-me ao jardim de troncos pendentes.
espinhos gigantes impenetráveis
rosas tingidas, ver-melho conducto.
os olhos estão pendurados
penetra o orvalho no buracoabismo.
tateio as paredes
os olhos delirosos.
viscoso chão ao que me debato
os olhos delirosos.
as unhas arranham a parede de musgo,
ver-de por todo lado
caem as rosas sob a minha face
(agora desconhecida)
decompus-me
e distinção não mais se faz entre nós.
eupoço.
a goteira intermitente atinge
os olhos do subsolo.
nascem cravos negros no cimento-semblante.
a boca salina, o rosto úmido,
os dedos mudos
nenhum som.
uma longa trilha de brasas
leva-me ao jardim de troncos pendentes.
espinhos gigantes impenetráveis
rosas tingidas, ver-melho conducto.
os olhos estão pendurados
penetra o orvalho no buracoabismo.
tateio as paredes
os olhos delirosos.
viscoso chão ao que me debato
os olhos delirosos.
as unhas arranham a parede de musgo,
ver-de por todo lado
caem as rosas sob a minha face
(agora desconhecida)
decompus-me
e distinção não mais se faz entre nós.
eupoço.
a goteira intermitente atinge
os olhos do subsolo.
nascem cravos negros no cimento-semblante.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Pressa
Seis horas da tarde, correm eles pela avenida
dizem-me: os braços se encostam,
os dedos voam,
os cabelos abraçam a brisa macia.
Rostos que adornam o cinza
dizem-me até: há alguma ternura,
algum carinho,
alguma palavra entreaberta.
Despetaladas voam as flores pelo asfalto
dizem-me mais: há riso.
as bocas horizontalizadas beijam a mesma brisa
que os cabelos outrora abraçaram!
há um tanto
um punhado
de algo no ar
que não polui
nem perverte.
há um tanto
Seis horas da tarde, correm eles pela avenida
de algo no ar.
Param os relógios
Seis horas da tarde.
dizem-me: os braços se encostam,
os dedos voam,
os cabelos abraçam a brisa macia.
Rostos que adornam o cinza
dizem-me até: há alguma ternura,
algum carinho,
alguma palavra entreaberta.
Despetaladas voam as flores pelo asfalto
dizem-me mais: há riso.
as bocas horizontalizadas beijam a mesma brisa
que os cabelos outrora abraçaram!
há um tanto
um punhado
de algo no ar
que não polui
nem perverte.
há um tanto
Seis horas da tarde, correm eles pela avenida
de algo no ar.
Param os relógios
Seis horas da tarde.
domingo, 3 de novembro de 2013
Impossível, impassível
O pronome ou a locução pronominal
O peso das duas coisas.
O peso sob os ombros.
O peso sobre mim.
Porque se houveram nós
Não há outros que possam separar.
O peso das duas coisas.
O peso sob os ombros.
O peso sobre mim.
Porque se houveram nós
Não há outros que possam separar.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
O voo inter(rompido)
Volta o misterioso inseto ao aparador.
As asas chagadas recuperam-se lentamente.
Cai sobre ele um véu de verdade e aprendizado
Já não mais paira sob a luz pungente.
Vive agora a pousar em árvores baixas e
desconhecidas
Vive agora.
mas
antes preso em escuridão e cegueira profundas
cai de quando em quando.
ABRE AS GRANDES ASAS NEGRAS
Toma ares vampirescos
recolhe-se.
as asas são estranhas
mal sabe acomodá-las.
[De certo saberá um dia.]
E hoje clama por
Perdão.
As asas chagadas recuperam-se lentamente.
Cai sobre ele um véu de verdade e aprendizado
Já não mais paira sob a luz pungente.
Vive agora a pousar em árvores baixas e
desconhecidas
Vive agora.
mas
antes preso em escuridão e cegueira profundas
cai de quando em quando.
ABRE AS GRANDES ASAS NEGRAS
Toma ares vampirescos
recolhe-se.
as asas são estranhas
mal sabe acomodá-las.
[De certo saberá um dia.]
E hoje clama por
Perdão.
sábado, 17 de agosto de 2013
Soco
O vaso em cima da mesa envolve flores e memórias e toda a poeira que o tempo juntou.
A toalha em cima da mesa
Hoje puída,
Ontem dava lugar às pequenas mãos ansiosas pela refeição.
As mãos
Antes sobrepostas e pelo carinho entrelaçadas
A toalha em cima da mesa
Hoje puída,
Ontem dava lugar às pequenas mãos ansiosas pela refeição.
As mãos
Antes sobrepostas e pelo carinho entrelaçadas
Hoje
Fechadas de ódio
- os olhos estão injetados -
E em um só gesto...
o vaso,
as flores,
As Memórias
Tudo se esvai.
Cai o corpo consumido sob a toalha consumida.
O vinho é servido aos convidados
Jantam as bestas sob o pó de todos os tempos.
Fechadas de ódio
- os olhos estão injetados -
E em um só gesto...
o vaso,
as flores,
As Memórias
Tudo se esvai.
Cai o corpo consumido sob a toalha consumida.
O vinho é servido aos convidados
Jantam as bestas sob o pó de todos os tempos.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
Tempo?
Nesta cidade
ninguém escuta
ninguém ouve
ninguém entende
ninguém
Nesta cidade
a mão é fria e fechada
as margens do corpo
QUENTES DA GENTE QUE PULSA
a mão que segura
outra mão? não
mas o cetro
ele
bate
gélido
afiado.
Nesta cidade
o Cetro
o Beijo
Concreto
na cara.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Sobre nós e (toda a) gente
Abraçados para que o aperto ruim no peito
Se desenlace em aperto-explosão.
-
Nó de marinheiro - não pela maneira
Mas pela corda de ossos que enlaça a vida
E não deixa escapar pelos dedos.
-
Nós, apertados, para que a gente não desamarre.
-
Abraço é cobertor de flanela
Que derrota os monstros debaixo da cama
Ainda que os montros estejam longe dela
Ainda que não se tenha cama.
Que protege da noite inquieta,
Dentro do corpo ou fora dele.
Que acolhe o peito em chama
Quase extinta.
Se desenlace em aperto-explosão.
-
Nó de marinheiro - não pela maneira
Mas pela corda de ossos que enlaça a vida
E não deixa escapar pelos dedos.
-
Nós, apertados, para que a gente não desamarre.
-
Abraço é cobertor de flanela
Que derrota os monstros debaixo da cama
Ainda que os montros estejam longe dela
Ainda que não se tenha cama.
Que protege da noite inquieta,
Dentro do corpo ou fora dele.
Que acolhe o peito em chama
Quase extinta.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Aterrissagem
Asas perdidas em suas imensidões
Escuras, grotescas; mas bonitas em sua estranheza.
O misterioso inseto paira sob a terrível lâmpada cálida.
Sente o calor pungente, mas o brilho
O brilho...
Continua ali, inerte.
[O fim está próximo, mas só nós sabemos disso.]
A quentura do objeto estranho e maravilhoso já incomoda
Mesmo o clarão parece agora proibido
Terrível proximidade em que se meteu a pobre
Agora nem as asas sente mais.
A luminosidade sublime
Agora nada além de assombrosa.
Asas em chaga
Perecer.
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