quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Infância eterna

Crianças, nada além de crianças - dizemos.
Grandes são as crianças, que enfrentam a vida com toda ousadia,
Que sobem na mesa, que comem na lama, que perguntam sem armadilha.
Crianças que sujam as calças sem medo, que correm no vento, que amam a brisa.
Pergunto a ti: quanto tens de criança? Dizes que é bobagem minha.

Tão pequenos, tão sábios: vivíamos um dia após o outro, bem vividos como deviam.
Faziamos planos: éramos bombeiros, professores, médicos, cantores.
Éramos maestros: regíamos com afinco nossa família.
Éramos sonhadores: a vida era uma eterna brincadeira a ser vivida.

Os anos passam, responsabilidades aumentam, vemo-nos sem saída.

Que fazer agora, tão longe do topo tão perto da descida?
Pois serei tola novamente, se me permites: basta resgatar aquela criança adoradora de palavras, números, formas, cores, sabores, desafios;
basta adorar aos outros como adora sua própria camisa.

Quando a criança morre, é triste pensar.
Quando a criança morre, a curiosidade sobre o mundo termina - assim como a beleza dele.
Quando a criança morre, o ânimo se esvai.
Por que então não sermos crianças?
Crianças com almas de adulto; crianças que amam tudo aquilo que as cercam e que fazem do choro a maior das belezas.
Crianças crescidas, mas crianças.

Retrato de minha cidade

Alma seca e indiferente
como o solo rachado do sertão;
A mente, artificial e programada
bem como o que chamam de lar - disfarçado porão.
Chamam também de cidade,
de terra de igualdade, de bar do Bolão
Chamo de espelunca, de cortiço,
de felicidade fingida
Paraíso da decepção.

Enjaulamos espécies, pensando que estamos no lucro
Que é a vida, não é mesmo, se não um CD fajuto?
De faixas riscadas e sons desconexos
Um albúm cheio de complexos
Pouco complexo.

Continuo procurando pela beleza (eles dizem)
Quem sabe eu a encontre no concreto em brasa,
nos rebolados dos paus-de-arara urbanos,
ou nos arranha-céus prateados acizentados.
Quem sabe?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Há muita mentira e pouca poesia no mundo.

Um pouco de Drummond...

...Para saciar a sede da noite.


"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

Coisa linda!

Que mundo!

Oh! Fracos homens, homens fracos
Tão belos em seus fraques
Tão sujos em seus papos
São craques, são craques.

Oh! Lindas moças, moças lindas
Tão belas em suas boas-vindas
Tão sujas em suas jóias polidas
Que sina, que sina.

Sobrevivendo

E é tão triste este triste desenrolar
De semana a semana, tão devagar
As palavras, somem
A imaginação, flui
E eu, meu!Eu tão distante
E minha presença, tão sóbria
E minha mente, tão fraca.
Contentar-me-ei somente com a poesia




será?

...

E não há nada mais triste ou belo
do que quando as palavras saem flutuando
sem rumo sem carta sem direção

Minha vida é ter essas palavras
sozinhas
esperando pelo dia...

Amor platônico

Quanto amo?
Amo mais do que deveria,
Amo menos do que qualquer um;
Amo as notas de jazz amando-me pelo passar da noite.

Amo, não pelos braços ou pelos lábios
Amo pela alma e por entre os dedos,
Que desejam tocar-te em sonhos fingidos.

Amo o vento, as águas, as aves
Que te esculpem das falanges ao espírito,
Que te adoram e dançam contigo no embalo da vida.

Amo a imaginação e a poesia - combinados em um só -,
Amo Platão.