terça-feira, 5 de junho de 2012

Circunflexo

O vôo circunflexo de uma ave, 
ponto de exclamação e convergência 
de um olhar mais que nítido: vazado. 
(— E, transpassada por um vento externo e interno, 
a praça, com janelas para a praça.) 

Deixamos de esperar que alguma dança 
perdoe nosso espaço alucinado. 
O desenho dos gestos se extravia, 
a dor se agrava, grava em nós seu mapa. 

Pouco faltou para que nosso invento 
tivesse sopro, fosse além do traço: 
navegação, mais rápida que a barca, 
ia tecendo sua própria água. 

As linhas, uma a uma, caem mortas 
diante desta manhã, trava, aguçada 
pelas doces palavras 
desarmadas. 



In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1

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