sábado, 9 de junho de 2012

Aparição noturna

Algumas lâmpadas iluminam a noite, mas a cidade está escura. O inverno está debruçado. Os corpos passam pelas ruas e misturam-se em infinito vai-e-vem, que aquece os corpos e sacode as almas. Sentado no bar, espera a queda do mundo ou sua mistura em toda a gente que precisa.
Os dentes estão quebrados pelos anos, o corpo denuncia cansaço e os braços são fortes. São. Os anos caem no corpo como caíram nos dentes, e a pele é morena nascida no sol de Cuiabá. Os olhos resplandecem: iluminam e quedam sobre os nossos como brasa em dia de inverno, que sustenta e revitaliza o tudo que parecia um grande e morto nada. Os olhos são luz intensa na noite amarelada de São Paulo.
Seu produto é o amendoim, sua alimentação é o amendoim, suas crianças: amendoim. "Se há desgraça nessa terra, ela trata de abraçar os filhos mais repletos", pensou. E abraça apertado, sufoca, envenena - não consegue concluir o trabalho. Os braços são fortes, e o abraço letal virá deles (mesmo eles tão cheios de vida). "Não se deixa desgraça me segurar não!".
A boca maltratada canta e lembra os sons antes ouvidos. Os olhos são puro brilho e imagem. Amor. Se existe amor, ele está ali naquele homem. Ele leva a vida, e não o contrário. Ele leva o amendoim, puro grão e pura vida, para que seja levado à família.
Se existe amor, ele está ali naquele homem que canta e ri como se tudo fosse beleza, mesmo em plena desgraça.
E o amor segue seu caminho, enquanto a noite cai por completo naquela esquina. Mas, por dentro, a claridade é caminho imenso no peito do poeta.

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